Eu tenho medo de morrer porque estou vivo; quando morrer, não vou ter mais medo da morte porque vou estar morto.
Semana passada, tive algumas experiências estranhas (como sempre) com a morte.
QUINTA FEIRA:Tudo começou com uma visita à uma funerária tradicional daqui de Ribeirão que eu estou atendendo. Fomos eu e o mestre Kamarão fazer uma visita a todas as instalações da empresa, incluindo o necrotério, onde ficam os mortos para serem preparados para o velório, como banho, maquiagem e vestimento. Tinha uma senhora lá, morta. Bem velha mesmo, nua, a pele cor de cera e os olhos em paz. Ficamos observando-a por um tempo, eu fiquei imaginando a vida inteira dela, fiz uma idéia fantasiosa do que ela fez enquanto viva, desde que nasceu, até aquela hora... que ela estava na mesa, morta.
De certa forma, isso me deixou meio confortado... eu até pensei: "putz, deve ser bem pior ver uma pessoa morrer, do que ver ela morta já..." - parece que Deus escutou meus pensamentos.
SÁBADO, 5h da manhã:Estávamos eu, Thadeu do baixo, Rodolfo Bahia e mestre Zula (sim, o mesmo cara do Zé Carlinhos) voltando de uma "festa", quando testemunhamos um acidente: um Fox fechou uma moto, que colidiu com o carro lançando o motoqueiro no muro... os idiotas tentaram fugir, mas nós fomos atrás dos filhos da puta e os fizemos parar... voltamos à cena, para conversar com o motoqueiro, mas a cena que vimos vai ficar marcada pro resto das nossas vidas: o cara estava no chão, sob uma poça gigante de sangue, com o rosto desfigurado, ensanguentado, com um furo na cabeça, sua perna estava com o osso do fêmur para fora do joelho... e o pior era ouvir a respiração do cara, ofegante... horrível.
Foi juntando uma galera em volta, prostitutas, manos, um velho cheiradaço, etc... Ligamos pra "emergência" e esperamos os paramédicos chegarem... VINTE minutos, sim 20 minutos eles demoraram pra chegar... parecia uma eternidade. O cara lá, deitado, ensanguentado, todo fodido, com aquela respiração horripilante...
Cada um de nós teve uma reação diferente: Thadeu e eu, ficamos ao lado do cara, falando coisas "boas" pra ele (sei lá o que é "bom" ou "ruim" na hora que uma pessoa morre) e observando aquela situação cabulosa; Bahia, com seu sangue bahiano, queria bater nos dois gays (sim, eram dois homosexuais que atropelaram o cara), pois um ficava gritando, feito um pavão: "- Ai meu Deus, o que eu fiz?? Minha mãe vai me matar!!" (fucking loser). Já Zulu, esboçou a reação parecida com a do Zé Carlinhos: "- Ai, eu não acredito que eu to vendo isso, meu Deus, ajuda!" E ficava ligando de dois em dois minutos pra emergência... menino bom.
No fim, eles chegaram examinaram o cara, fizeram um "não" com a cabeça, sem muita esperança... e levaram o nosso amigo embora.
Thadeu, se inclinou em cima do sangue, tentando procurar algo, perguntei: "- Que você tá olhando aí, mano?" Ele: "-Nossa cara! Isso são os miolos dele!" E eram... eu vi os miolos do cara no chão, mano.
Fomos embora de lá... eu nem dormi direito... o rosto do cara tá estampado na minha mente até a presente data.
Na segunda feira, eu, com minha imensa curiosidade e capacidade de descobrir qualquer coisa, liguei no 193, falei com o cara do bombeiro, que me disse que o cara foi levado pro HC... liguei lá, e a mulher me disse que ele se chama Odair José e está em estado grave... Deus abençoe ele.
Como disse, não tenho
muito medo de morrer, porque estou vivo... mas se fosse escolher um tipo de morte, com certeza escolheria a morte da velhinha... morrer sofrendo, na rua, sem tua família, com vários estranhos em volta deve ser... nem sei o que.
Afinal, a gente nasce e morre sozinho, né?